Historia de vida. Mãe doa seu proprio orgão para o seu filho! (Um dos seus rins)

Quem doa um órgão, doa uma vida…

Quando amanhecia o dia eu ficava imaginando se aguentaria vivo até a noite. Por que eu? Por que não outra pessoa passando por esta situação? É duro, dói muito”, fala João Frederico Herondino Leite, que aos 45 anos passou por um transplante de coração na cidade de Blumenau. A vida do urussanguense chegaria ao fim no dia 31 de dezembro de 2001 se não conseguisse um doador. Mas na tarde do dia 19 de dezembro do mesmo ano tudo mudou. Com um simples telefonema, a esperança de manter-se vivo brotou fortemente em João: Um jovem de 19 anos morreu por agressão e o urussanguense seria a pessoa mais indicada a receber o órgão.

A longa trajetória de espera e angústia iniciou quando o homem tinha apenas 29 anos de idade. Após ter tido um infarto, a necessidade de um transplante foi detectada pelos médicos. O coração de João cresceu demasiadamente, diminuindo a capacidade de bombeamento do sangue no corpo. Para continuar vivo, o urussanguense necessitava de um novo órgão. “Quando soube que tinha que fazer a cirurgia, fui me desfazendo das coisas por causa do tratamento. Vendi tudo o que tinha em casa e ainda fiquei devendo, minha situação não estava nada fácil. Ia a São Paulo até três vezes por mês para cuidar de minha saúde, tinha que pagar os medicamentos, passagem, médicos, hospedagem. Era muito complicado”, lembra João.

O estado de saúde do homem só piorava. Ele sentia dores pelo corpo todo, já que o sangue não circulava. Tinha falta de ar facilmente, não conseguia conversar e andar mais que poucos metros. O mal-estar era constante, e a incerteza se permaneceria vivo era comum na família. “Certa vez me ligaram da central de transplantes porque havia um doador compatível comigo. Minha felicidade era imensa, não dá para explicar. Mas infelizmente, na hora da retirada dos órgãos, a família desistiu e resolveu não doar mais. Aquela notícia me abalou muito, doeu demais. É duro aguentar, embora eu saiba que é uma situação muito difícil também para a família do doador”, diz o urussanguense.

O estado de saúde do homem era crítico. Ele já estava na reta final de sua vida, e as esperanças diminuíam a cada anoitecer. Faltando pouco mais de 10 dias para o prazo dado pelos médicos, tudo mudou. Por volta das 12h30min do dia 19 de dezembro de 2001, João subiu as escadas de casa e deitou na cama, sem conseguir respirar. Foi aí que o telefone tocou. O filho, Wagner Nunes de Souza, atendeu a ligação que era destinada ao pai e lhe passou logo em seguida. “Temos um doador, e você é compatível”, falaram do outro lado da linha.

A partir daí iniciou a corrida contra o tempo. João tinha que chegar até as 21 horas em Blumenau para iniciar a cirurgia. “Não sabia o que fazer. Tinha muitas atitudes para tomar e dúvidas por onde começar. Fiquei apavorado na hora”, explica ele. O urussanguense, então, ligou para Major Amorin, homem que havia se disponibilizado a buscá-lo de helicóptero quando houvesse um doador. “Minha mãe, tentando me ajudar, foi atrás da polícia, governo do Estado, bombeiros, em busca de alguém que me levasse até Blumenau para fazer o transplante. Graças a ela consegui ir até lá rapidamente”, ressalta.

João chegou ao Hospital Santa Isabel, no Vale do Itajaí, antes do horário marcado, mas a cirurgia só iniciou às 6 horas da manhã. Ao todo, o processo do transplante levou mais de 12 horas, deixando a família e os amigos ansiosos por boas notícias. A espera parecia interminável, as horas não passavam, e a angustia só aumentava. Mas, felizmente, o coração do jovem Thiago Giacomi, de 19 anos, morto por agressão em um baile de formaturas voltou a bater vivamente e com força total no peito do urussanguense João Leite.

A recuperação, que teria que ser de 30 dias, durou 66 devido a uma infecção hospitalar que adquiriu. “Os pontos foram abrindo, um a um, de fora a fora. Este foi o pior momento que passei internado naquele hospital. Minha esposa diz que era possível enxergar meus órgãos, e até mesmo o coração batendo lá dentro”, garante ele.

Hoje, oito anos após a cirurgia, ele leva uma vida normal na medida do possível. Ainda toma medicamentos para manutenção do órgão e contra a rejeição do organismo. Além disso, segue acompanhamento médico e vai a Blumenau a cada três meses por causa do tratamento. É grato infinitivamente à família e aos amigos, porque sem eles, não teria tido força suficiente para conseguir chegar onde está. “Tenho uma estrutura muito boa em minha casa. A família foi fundamental nos momentos mais críticos, em especial minha esposa, Soraia Nunes de Souza Leite, por ter me dispensando palavras de apoio e nunca ter me deixado de lado. Sem ela e meus dois filhos, Wagner e Larissa, não teria conseguido”, diz João, em meio às emoções e lembranças de toda uma vida.

O urussanguense concorda, com toda a certeza, com a frase que diz que quem doa um órgão, doa uma vida. “Acredito que deve ser melhor saber que uma pessoa querida salvou a vida de outras  do que ter a consciência de que foi enterrado e todos os órgãos se deterioraram. Ninguém sabe o dia de amanhã, se hoje eu preciso de alguém, amanhã este alguém pode precisar de mim, não é mesmo? Poder doar e salvar a vida de pessoas que precisam, assim como eu precisei, não tem preço, nem explicação”, diz João.

Doação, um ato de amor e solidariedade

Através da doação de órgãos, uma única pessoa pode salvar ou melhorar a qualidade de vida de até 10 pessoas. Aqueles que não veem, podem enxergar. Quem não anda, volta a andar; e procedimentos dolorosos e cansativos como a hemodiálise ou respiração através de máscaras de oxigênio podem ser deixados de lado. “O paciente não morre por causa da doença, nem por falta de medicamentos, médicos ou hospitais especializados, e sim porque ninguém doa para ele. As pessoas devem se conscientizar da importância de salvar vidas”, explica o responsável pela captação de órgãos do Hospital São José, de Criciúma, Nehad Yusuf Nimer.

Uma pessoa só pode doar todos os órgãos quando for constatada a morte encefálica. Ela é irreversível, incompatível com a vida. Quando isto ocorre, o paciente perde toda a atividade cerebral, e somente o coração continua pulsando. Esta situação pode durar alguns dias, ou poucos minutos, dependendo do organismo da pessoa. Para detectar a morte encefálica, são feitos três tipos de exames no paciente. Se todos derem o mesmo resultado, afirmando a condição, a família é abordada a respeito da doação. “Por isso é importante as pessoas conversarem em casa se querem ou não doar os órgãos. Desta maneira, se por ventura acontecer alguma fatalidade, a família já sabe o que fazer. Quando detectada a morte cerebral, a decisão deve ser rápida, para que dê tempo de tirar e aproveitar o maior número de órgãos possíveis”, afirma Nehad.

O profissional diz que o maior tabu ainda encontrado é o receio da família em fazer a doação. “Muita gente se apega a Deus, e acredita piamente que um milagre acontecerá. Por isso, nos impedem de fazer a cirurgia de retirada”, explica o médico. A cidade de Criciúma foi, pela segunda vez consecutiva, o município que mais fez captações de órgãos no Estado. O Hospital São José, em especial, tornou-se referência no assunto. Além disto, os profissionais da entidade já fazem transplantes de córneas e de válvulas coronárias. A equipe também espera que até o fim do ano saia o credenciamento para que possam ser feitos transplantes de rins na entidade.

Após a captação ser feita, cada órgão retirado é analisado e suas características são repassadas para a central, em Florianópolis. Peso, tamanho, se é proveniente de um homem ou mulher, tipo sanguíneo e altura são algumas das peculiaridades observadas. Lá, os profissionais encarregados verão quem é o paciente mais compatível e quem está na lista de espera há mais tempo, para contatar e fazer o transplante.


A dor da decisão: doar ou não doar?

O urussanguense Kauê Damiani faleceu de forma inesperada quando andava de skate no dia 17 de junho de 2006. Faltando apenas 10 dias para completar 25 anos de idade, o jovem sofreu um traumatismo craniano, e logo em seguida foi constatada a morte cerebral. A mãe, Lezy Damiani, mesmo consternada e abalada com a situação assinou todos os papéis para que fosse feita a retirada dos órgãos de Kauê. Ela quis que seu filho, mesmo tendo falecido de forma tão prematura pudesse ajudar outras pessoas a viver, então chegou à conclusão que doar era a melhor atitude a ser tomada. “Até pouco tempo eu imaginava mesmo que todos os órgãos haviam sido retirados. Foi então que minha filha revelou que não permitiu a doação”, fala Lezy.

Stela Damiani, a irmã mais velha de Kauê, já havia assinado os papéis necessários para que os médicos retirassem tudo o que fosse possível. Mas mudou de ideia. Quando viu o jovem respirando, não teve coragem de deixar que seu coração fosse retirado. “É uma situação difícil, e o meu emocional estava muito abalado. A primeira coisa que veio na minha cabeça foi a doação, mas depois desisti. Acreditava que aconteceria um milagre, e que ele voltaria a viver”, fala Stela. Segundo Nehad, isto é muito comum de acontecer. Como o coração do paciente continua pulsando, os familiares principalmente, abalados com a situação, acreditam que ele continuará vivo e se recuperará, mesmo sendo impossível isto ocorrer no caso de morte cerebral.

“Uma perda assim tão inesperada faz a gente aprender muita coisa. Eu amadureci muito, e hoje faria diferente. Arrependi-me profundamente pela atitude que tomei naquela hora, mas a emoção e a esperança falaram mais alto. Hoje, tenho certeza que doaria sem pensar duas vezes, pois percebi que muitas vidas estão em jogo. Se eu tivesse aceitado, teria contribuído para a sobrevivência de várias outras pessoas, mas infelizmente não tinha isso na mente naquela época. Acredito que não haja nada pior do que se arrepender de não ter aceitado a doação. Pelo menos um pedacinho da pessoa que eu amo tanto estaria vivo no corpo de alguém que precisa’, fala Stela, emocionada.

Angústia na fila de espera

Fabiana Rodrigues mora no Bairro Estação, é casada e têm duas filhas, uma de 13 e outra de sete anos de idade. Sua vida seria normal, como tantas outras, se não fosse um único problema: ela está na fila de espera por um fígado há seis meses, e aguarda ansiosamente um transplante. “Só quem passa por isso na família se conscientiza da importância de doar. Eles veem o sofrimento que a gente passa. Tudo isto é muito triste”, alega.

O problema de Fabiana iniciou em sua primeira gestação. Ela tinha febre, diarréia e surgiam feridas pelo corpo. A mulher teve uma doença rara, chamada de colangite esclerosante, e tanto ela como o bebê sofriam risco de morte. Felizmente, isto não ocorreu, mas a enfermidade só se agravou com o passar dos anos. Quem possui este tipo de doença vai perdendo o fígado aos poucos, já que ele vai secando gradualmente. “Esta doença tem um prazo de 12 anos para acabar totalmente com o órgão. E a minha já tem este tempo. Preciso urgente de um transplante”, explica a mulher.

Atualmente Fabiana toma medicamentos que têm praticamente a mesma função do fígado, além de calmantes e remédios para dormir. Algumas vezes acorda bem e disposta. Outras, portanto, amanhece muito fraca, com náuseas e mal-estar. “É muito comum eu ter hemorragias pelo nariz e boca. Sinto muito cansaço, tenho sono em excesso, meu abdômen e pernas ficam inchados, além de surgirem marcas roxas pelo corpo o tempo todo. Não posso comer nada gorduroso, e bebida alcoólica então, nem pensar. Outra coisa que preciso muito é de repouso”, fala ela.

Além das dificuldades comuns de encontrar um doador, Fabiana sofre com outro problema: o fígado deve ser de uma mulher. “Não é fácil encontrar um órgão para mim. O tipo sanguíneo deve ser compatível com o meu, fora o peso, tamanho e, para piorar a situação, não pode ser de um homem. Quando entrei para a fila de espera nem conseguia dormir. Parecia que o telefone tocava durante a noite, eu ficava esperando ansiosa por uma boa notícia. Mas isso não aconteceu. Até quando eu vou ter que esperar? Será que as pessoas não se conscientizam da importância de ajudar, não só a mim, mas a muitas outras que precisam? Só quem passa por isso sabe o sofrimento que é”, salienta ela.

Assim como Fabiana, milhares de outros pacientes em Urussanga, no Estado e no País aguardam por um transplante. É desesperador ver o sofrimento que estas pessoas passam, esperando por um simples telefonema que podem salvá-los. Suas vidas são repletas de incertezas e inseguranças. “Será que eu vou chegar vivo até a noite?”. Esta pode ser uma pergunta sem importância a qualquer um, mas é uma interrogação constante àqueles que necessitam urgentemente de um transplante.

Quem doa, não se arrepende, pelo contrário, só tem alegrias em ver um pedacinho de uma pessoa que ama vivo, pulsando em outro ser. E acabar com a angústia de quem sofre, com certeza, não tem preço. Pode-se dizer, resumidamente, com força e verdade, que quem doa um órgão doa uma vida.

 

doa

sábado 31 julho 2010 19:45



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1 comentário(s)

  • Vanessa mailto Dom 08 Ago 2010 14:47
    Achei lindo o texto, eu doeei em maio de 2008 um dos meus rins para minha mãe e estamos bem graças a Deus.... continue esse lindo trabalho, bjosssss, fique com Deus


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